Mocidade preguiçosa, velhice trabalhosa

Velhice-Time_by_Yasny_chanO título acima é de um antigo provérbio português e como todo provérbio, contém a essência da atualidade. Claro como o cristal, sinaliza o quão dispendiosa será a velhice para quem na juventude renegar o trabalho.

Mas, mais do que atual eu diria que ele traduz uma condição quase endêmica de nosso tempo, cuja “genética” parece passar de pai para filho, numa crescente e perigosa onda de inversão de valores.

Numa análise de sua aplicação sobre gerações passadas, eu diria que antes ele poderia retratar alguns indivíduos “preguiçosos”, avessos ao trabalho, lentos na lida. Hoje, porém, a frase está mais galgada num pensamento coletivo e imediatista construído na crença ou no direito de receber antes de realizar, de querer ainda mais antes mesmo de evoluir.

Exemplificando a diferença deste indivíduo do ontem com a massa do hoje, basta uma análise sobre como as gerações passadas eram educadas para estudar e trabalhar com base nas recompensas futuras, cientes de que o começo de suas batalhas com poucas remunerações fazia parte de uma longa jornada, em que cada degrau deveria ser recompensado e valorizado mais adiante.

Hoje, porém, vemos uma dinâmica de busca de reconhecimento fugaz, com base no pouco esforço, ou com uma visão distorcida de esforço.

Talvez este “fenômeno” se justifique pela baixa qualificação que se inicia nas bases familiares, passando pelos processos escolares até os processos profissionais e que se configuram em falta de dedicação e compromisso, que por sua vez geram improdutividade e falta de desenvolvimento.

E ao contrário do que alguns pensam, o problema não está arraigado nas classes menos favorecidas financeiramente, mas espalhada em todas as classes, em diferentes níveis e por diferentes motivos. Uma complexa disfunção sócio-econômico-cultural que afeta o desenvolvimento de todo um coletivo, de toda a nação.

Para o melhor futuro, apenas o melhor da base

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Embora a motivação para escrever este texto tenha surgido dos meus filhos, foi no que vivi com meus pais que ele criou corpo. Sim, porque foi na ânsia de buscar respostas sobre o que devo ser e do que devo dar aos meus pequenos para que eles sejam crianças felizes e se tornem adultos independentes e saudáveis sob todos os pontos de vista, que encontrei muitas das respostas no que recebi dos meus pais. Afinal, foi graças a eles que o muito do pouco que tenho hoje foi possível e que um pouco mais posso dar aos meus filhos, ainda que seja muito menos do que eu gostaria de dar.

Convivendo com inúmeros exemplos de pessoas ao meu redor com muito mais posses e melhores condições de investir em atividades para o melhor desenvolvimento de seus filhos, por mais de uma vez me peguei questionando se não deveria me sacrificar mais, trabalhar mais, para ter mais e dar a eles muito mais: mais cursos, mais esportes, mais… E nesse questionamento quase sempre me volto ao passado de origem humilde dos meus pais, da minha escola pública, do dinheiro contado, da mesa magra, dos presentes magros, das roupas simples e o quanto a falta de melhor estrutura financeira interferiu na minha formação: nada.

Ah sim, se as condições fossem outras eu poderia ter estudado em melhores escolas, aprendido ainda cedo outras línguas, tido outras oportunidades de trabalho, #soquenão seria realizada se eles tivessem me privado dos melhores recursos para o meu desenvolvimento no momento mais essencial para a minha formação e que se constituíam “apenas” em amor, segurança, harmonia, respeito, atenção e, essencialmente, presença, boa presença.

Voltando para os questionamentos sobre os anseios e necessidades dos meus filhos e de todas as crianças do mundo, chego na conclusão de que o melhor investimento que podemos oferecer para elas e que é o principal responsável pelos rumos que elas podem dar aos seus próprios caminhos, é a melhor base moral e emocional.  Base esta que não se delega às babas, aos professores, não se transfere ao ensino de outras línguas ou à prática de qualquer esporte. Mais do que pedir brinquedos e passeios, nossos filhos claramente nos pedem amor. E revelam-se mais felizes pelo intangível do que pelo palpável, a não ser que este palpável seja um abraço, um beijo, um carinho pessoal, e não algo apenas material – que assim como a droga, logo tem seu efeito esvaziado.

Assim, antes de visualizarmos o sucesso de nossas crianças com base apenas no que podem vir a ter em forma de profissões bem sucedidas e bens acumulados na vida adulta, devemos pensa-las como adultos verdadeiramente plenos.

Este é o melhor legado, a melhor herança a dar para elas e que lhes darão a melhor base para o sucesso na “carreira” que mais importa, a carreira da vida.

Tolerância zero, evolução idem

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Antes de começar a escrever este texto me fiz uma pergunta que repasso adiante: Você se considera uma pessoa tolerante? Bom, antes de responder, vamos às definições sobre a palavra. Tolerância (do latim tolerare – suportar, sustentar) indica a capacidade de aceitar o contrário, o diferente e dentro desta definição entra não apenas raça, religião, política ou preferências sexuais, que são questões mais frequentemente debatidas. Aliás, o debate deveria ser o melhor termo para o estabelecimento da tolerância.

Embora seja óbvio dizer que a intolerância tenha tradução oposta, nunca é demais pontuar que ela se caracteriza pela inabilidade não apenas de reconhecer as diferenças, mas essencialmente de respeitá-las, sendo frequentemente representada pela hostilidade, com base em uma emoção negativa. Isso significa que mais do que discordar, a intolerância se baseia no atacar.

Vemos e vivemos a intolerância diariamente, em diversas situações cotidianas, mas é diante dos acontecimentos midiáticos e das redes sociais que enxergamos mais claramente a sua dimensão na humanidade: guerras, homofobia, preconceitos diversos, bullying de todos os tipos… com o feio, com o pobre, com o gordo, e com o oposto também, com o belo, com o magro, com o rico.

Uma pena, com certeza, já que ao praticarmos a intolerância com o próximo perde ele e perdemos nós. E então quando ela se incorpora num coletivo, compromete também a evolução e o desenvolvimento de toda a sociedade, da humanidade.

A questão em torno da tolerância é tão importante, embora pouco valorizada pelos indivíduos, que a ONU (Organização das Nações Unidas) até instituiu o Dia Internacional da Tolerância, celebrado em 16 de Novembro, visando combater a não aceitação da diversidade cultural.

O problema é que muitos entendem que tolerar é abrir mão de suas convicções, quando não o é. E aqui nem vamos entrar no mérito de certo ou errado, porque nem sempre é o bem e o mal, o certo e o errado que estão em jogo, mas apenas visões opostas. E mesmo em situações socialmente estabelecidas como incorretas, o que faz de nós melhor do que o “bandido” é a forma como o punimos. Maria Madalena apedrejada por “puros” que o diga.

Enfim, se quisermos viver em harmonia com nós mesmos, precisamos entender que precisamos estar em harmonia com o todo, praticando a habilidade do diálogo e da compreensão de que a vivência, as oportunidades e os conhecimentos do outro podem não ser os mesmos que os nossos, interferindo de forma importante sobre as diferentes visões.

Afinal, é preciso sol e chuva para ser formar a diversidade de cores de um arco-íris, embora enxerguemos apenas sete; é preciso uma diversidade de flores para construir um belo jardim; uma variedade de frutas para um rico pomar. E o que seria de cada cor, cada flor, cada fruta, se apenas uma fosse a escolhida, a preferida?

De minha parte, respondendo a pergunta do inicio do texto, posso dizer que evoluo a cada dia e posso me considerar uma pessoa tolerante, embora a política insista em me testar ;-).

Ah! Antes de encerrar, se ainda não se convenceu a respeito do poder destruidor da intolerância, acredito que este curta feito na Bósnia possa te ajudar:

Política e emoção, uma má combinação

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Na semana do trágico acidente que vitimou o candidato à presidência da República, Eduardo Campos, e antes mesmo de seu funeral, diversos cenários políticos já começaram a ser vislumbrados e engendrados. Para quem é do meio e vive da política, nada mais natural, já que as eleições estão próximas e decisões precisam ser tomadas num curto tempo.

Mas o que tem chamado a atenção não é o rumo que a eleição pode tomar pelos candidatos que permanecem no jogo, mas pelo que se foi. A morte de Campos conferiu um poder ao seu partido, a sua rede e a sua candidata a vice, que talvez não se sucedesse da mesma forma, se ele estivesse vivo.

O fato é que a morte de Eduardo Campos revelou, tardiamente, ao Brasil que ainda não o conhecia, as suas qualidades como político e ser humano, as quais não preciso repetir aqui, porque foram exaustivamente descritas pela imprensa.

Qualidades estas que somadas a comoção que qualquer morte brutal, de um bom pai de família, parece estar conduzindo novos votos para um caminho que muitos não haviam pensado antes. E creio ser este caminho um tanto perigoso. Não pela opção política que está sendo desenhada, mas pelo viés de sua condução, que deve ser feita com base na razão, na coerência, na pesquisa profunda pela nova opção, e não apenas pela emoção.

Fazendo um exercício sobre um outro cenário, em que o acidente tivesse tirado a vida de um dos outros dois principais candidatos, Aécio ou Dilma, que são atualmente amplamente acusados por N questões, e que também não preciso aqui descrever, suponho quais seriam as emotivas e positivas descrições pós morte:

Aécio Neves – Jovem, empreendedor, líder nato, neto do ilibado ex-presidente Tancredo Neves, com quem adquiriu suas primeiras experiências políticas. De uma trajetória política invejável, com sucessivas vitórias, desde o seu primeiro mandato como deputado federal em 1987, depois como presidente da Câmara dos Deputados e governador – o qual foi eleito duas vezes.

Com bons índices de aprovação no primeiro mandato de governador, garantiu a reeleição com o maior numero de votos da historia de Minas Gerais. Foi eleito senador em 2011, também com a maior votação do estado. Sua trajetória o levou naturalmente à presidência nacional do PSDB em 2013.

Dilma Rousseff – Líder, revolucionária, pioneira. Interessou-se pelos ideais socialistas após o Golpe Militar de 1964. Integrou organizações que defendiam a luta armada e acabou presa pela ditadura militar brasileira, onde foi duramente torturada.

Participou da fundação do PDT, exerceu o cargo de secretária municipal da Fazenda de Porto Alegre, foi presidente da Fundação de Economia e Estatística e secretária estadual de Minas e Energia.

Se filiou ao PT em 2011 e foi convidada pelo então presidente Lula para ocupar o Ministério de Minas e Energia, sendo posteriormente nomeada ministra-chefe da Casa Civil. Depois de se destacar como a primeira mulher a chefiar importantes instâncias governamentais, foi eleita em 2010 presidente da República, novamente a primeira mulher a ocupar esta posição no Brasil.

Belas histórias, não? Que somadas a um bom e exaustivo enredo midiático também poderiam, apenas por estes breves currículos, conduzir milhares e milhares de opiniões, ou falta delas, para novos rumos de decisão.

Assim, diante do terrível acidente que vitimou Eduardo Campos, a mensagem que poderia permanecer e ser mais um grande legado do político pernambucano, é que devemos pesquisar e estudar mais sobre os candidatos aos governos do nosso País, e não apenas os presidenciáveis, não apenas os de maior destaque. Que os que partem não precisem ser transformados em mártires para serem descobertos ou valorizados, da mesma forma que os que ficam não sejam facilmente direcionados por campanhas ardilosas que constroem e destroem perfis facilmente.

Lembrarmos que, considerando as suas devidas proporções, assim como gerir uma grande empresa, para comandar uma nação, um país, é preciso mais que empatia, é preciso ética, correção, competência administrativa, competência de gestão e não apenas de uma pessoa, de um político, mas de todo um grupo, de toda uma rede ou partido político.

Que a emoção que conduziu tanta gente a ler e querer saber mais sobre Eduardo Campos, conduza agora a saber mais sobre quem ficou, na sua rede política e em todas as outras. E que tomem suas decisões pela razão.

Amor, sociedade ilimitada

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Na tentativa de traduzir o amor, muitas palavras já foram usadas, mas acredito que a que melhor completa o significado para este sentimento tão complexo é “associar-se”, pelo seu sentido de reunião, de soma, de comunhão de interesses, nos seus aspectos mais amplos.

Embora não exista fórmula para o amor perfeito, tenho a teoria de que os relacionamentos duradouros são os que se constituem sob uma composição societária. Porque é isso que um relacionamento amoroso se fundamenta, embora muita gente não o veja desta forma nada romântica.

O fato é que vivemos juntos de quem amamos numa base de divisão de tarefas, investimentos e rendimentos, cada qual com seu perfil de atuação e dedicação. Em uma área ou segmento da convivência há sempre o que lidera e o que opera, sendo ambos essenciais para o conjunto, a harmonia dos resultados, para o lucro do relacionamento.

Por isso, para uma “sociedade amorosa” dar certo, também é preciso inspiração, comprometimento, motivação, reconhecimento, todos os dias, entendendo que haverá dias em que uma parte ou outra estará mais ou menos inspirada para a sua tarefa.

O currículo para entrar nesta sociedade? Bagagens familiares, experiências em relacionamentos anteriores, nas sociedades vizinhas, e onde as desilusões alheias ou do passado não devem criar dividendos de rancor e comparações, mas sim ser a base para a construção de novos valores, para o aperfeiçoamento de novos processos, novos investimentos.

Também deve-se ter claro que não são os grandes projetos ou acidentes de percalços os maiores desafios para a longevidade desta sociedade, mas a rotina, o cotidiano cheio de marras, de coisas pequenas, de mesquinharias… mas também de acolhimentos, de admiração mútua, de gestos de carinho, de parceria, de amenidades.

A única diferença de uma sociedade profissional para uma sociedade amorosa é que na maioria das vezes não escolhemos a quem amar como escolhemos a quem nos associar profissionalmente. Mas é pela vontade mútua e pelos lucros sem valor financeiro, que na amorosa decidimos continuar.

Ao meu amor maior

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Existem pessoas que marcam a nossa existência de tal forma, que mesmo em sua ausência física, sentimos sua constante presença.

Pessoas cheias de qualidades e também de defeitos próprios da natureza humana e do mundo de expiação a que estamos sujeitos em nossa passagem terrena… mas, acima de tudo, pessoas que emocionam, encantam e enobrecem o mundo ao seu redor pela profusão do seu amor.

E que mesmo amando em excesso, conseguem deixar livres – apesar do coração apertado – aos que amam.

Pessoas que deixam como o maior legado para os seus descendentes, a mais valiosa e rica herança que se pode deixar… o exemplo da força, da coragem, da luta, do respeito ao próximo, da bondade, da ética e, de novo, de um imenso amor.

Estas pessoas, ao partirem, partem também nossos corações, mas deixam a certeza de que Deus existe e que sua passagem de luz deixará acesa a esperança de um dia nos reencontrarmos.

Ao meu amor maior: minha mãe querida.

 

Envelhecer é evoluir

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Os anos passam, avançam e com eles envelhecemos, certo? Mas o que é envelhecer para você? Se formos seguir a tradução dos dicionários, os significados não trarão palavras muito amigáveis, centradas basicamente no sentido do ultrapassado, obsoleto, desusado. Talvez seja por isso que para a grande maioria das pessoas o envelhecer pareça tão penoso.

Com quatro décadas de vida, acredito que já possa falar um pouquinho sobre este processo, que prefiro nomear como amadurecer e sua tradução muito mais agradável, baseada em apurar, tornar-se experiente, comedido.

Se pararmos para analisar, as traduções das duas palavras de fato diferenciam as pessoas e a forma como conduzem suas vidas, geralmente tornando aquelas que mais temem o envelhecer, mais pesarosas e suscetíveis aos seus infortúnios, se comparadas com aquelas que optam por “madurar”.

Sim, eu sei que com o passar do tempo perdemos o viço, o vigor físico, ficamos mais lentos e suscetíveis às doenças, mas seria totalmente injusto resumir o envelhecer apenas às perdas, quando na verdade ele nos trás um universo de qualidades inimagináveis e incompreensíveis quando jovens, como mais seletividade e maior capacidade de discernimento sobre o quanto devemos investir de nossa energia, mais escassa e muito mais preciosa, no que é realmente bom, em quem é realmente bom.

Garanto que a despeito das perdas físicas sobre visão, audição, olfato, tato e paladar, com o tempo nossos sentidos aguçam, tornando-se muito mais apurados sobre gostos, prazeres, sabores e valores.

Dizer que gosto e me orgulho de minhas rugas que, aliás, em meu rosto deram os primeiros sinais ainda na juventude, seria hipocrisia. Não, não gosto delas, mas o tempo me ensinou que elas não são importantes diante do legado que construí por trás da minha face. E o que sinto a respeito delas hoje é, na verdade, uma prova importante do quanto eu amadureci por dentro.

A morte como brinde à vida

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Em todos os campos de nossa vida, atuamos em função da motivação. Trabalhamos mais e melhor sempre que recebemos uma injeção de ânimo, seja um aumento de salário, um novo curso profissionalizante, um novo livro de gestão de carreiras, um reconhecimento do patrão.

No amor, e especialmente com o passar do tempo de um relacionamento, também precisamos de novos elogios, novos olhares, resgates de carinho, que nos impulsionam para novos momentos de paixão. É o que chamamos de combustível da vida a dois.

Mas, paradoxalmente, nada nos impulsiona mais a viver do que a presença da morte, seja ela anunciada pelo prenuncio de uma doença conosco ou de um ente querido, ou mesmo inesperada, por uma fatalidade com alguém próximo, um conhecido.

A morte repentina de José Wilker no ultimo sábado retrata bem este sentimento. Em algumas conversas pessoais e nas redes sociais, em meio às manifestações de pesar pela partida abrupta do ator, várias pessoas trouxeram à tona a necessidade de se aproveitar mais a vida, da importância de valorizar o que é preciso, de focar na felicidade enquanto há tempo, porque o amanhã… ah, o amanhã… quem sabe?

É fato, a nossa existência é breve, efêmera, frágil. Mas será que somente nos deparando com a morte podemos valorizar a vida? Será apenas esta a mola propulsora, por sinal bem dolorosa, capaz de nos despertar? E quantas mortes seriam necessárias para nos manter em constante motivação?

Acredito que esta questão poderia ser resolvida com uma “pílula diária de reflexão”, ingerida todos os dias, pela manhã, ao abrir dos olhos, ainda em jejum. Cada qual deveria ingerir pelo menos 15 minutos antes de iniciar suas atividades. Tempo este suficiente para agradecer o acordar, para olhar no horizonte e com ele vislumbrar todos os acontecimentos e pessoas possíveis e que valem a pena investir naquele dia. Utópico? Não, totalmente viável como em toda mudança de hábito que buscamos para ter melhor qualidade de vida, em que se faz necessário, simplesmente, se dedicar. Neste caso, para literalmente… viver.

 

O que você tem a ver com a violência?

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A divulgação da pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), realizada com 3.810 pessoas, sendo 66.5% de público feminino, foi a notícia e o debate predominante da semana, ao revelar que a maioria da população brasileira acredita que mulheres que expõem seus corpos merecem ser atacadas e que o seu comportamento “inapropriado” justificaria estupros.

Um resultado realmente preocupante, mas que julgo, sinceramente, esperado, dentro dos acontecimentos de violência que vivemos diariamente. Não, não estou falando de roubos, sequestros e assassinatos que vemos na mídia, na vizinhança próxima e mesmo na família de alguns que estão lendo este texto agora. Estou falando da violência praticada em forma de egoísmo, falta de respeito, de educação que presenciamos cotidianamente em filas de mercado, de banco, nas vagas de estacionamentos, em elevadores, transporte público, trânsito… e que parece crescer de forma endêmica. Uma massa de cidadãos “pacatos”, comuns, com ou sem “berço”, que parecem se transformar em selvagens diante de seus interesses e necessidades de chegar primeiro, de ter primeiro, de ser o primeiro.

Em situações como estas me lembro da Educação Moral e Cívica, instituída como disciplina obrigatória nas escolas, a partir da Lei 869 de 12 de setembro de 1969 e que deixou de ser obrigatória após o fim, tardio, da ditadura. Na minha inocente adolescência sempre questionei que raios a tal EMC teria de valor para a vida do estudante, além de ensinar a respeitar os símbolos pátrios, até que agora me deparo com a falta de ética e moral do ser humano com tudo, a começar por ele próprio, e percebo o que perdemos ao longo da história, com a perda desta disciplina.

Sem entrar nos méritos de intenções governamentais, a matéria tinha entre suas finalidades, o fortalecimento da unidade nacional e do sentimento de solidariedade humana, o aprimoramento do caráter, com apoio na moral, na dedicação à família e à comunidade e o preparo do cidadão para o exercício das atividades cívicas com fundamento na moral, no patriotismo e na ação construtiva, visando o bem comum.

É verdade que a escola não é e não deve ser a única responsável pela formação do caráter do ser humano, mas sim a sua base familiar. Mas o que esperar de uma base familiar que não tem e, portanto, não reconhece e não replica valores para os seus?

Ainda que a disciplina não exista mais, teoricamente ela deve fazer parte de um conjunto de disciplinas que integrem a grade escolar como um todo, com questões morais e éticas fundamentais para o exercício da cidadania.

Desde 2011, tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para incluir a disciplina de Ética e Cidadania nos currículos escolares. Será este um caminho para a retomada destes valores? Será este o recurso necessário para que o ser humano se perceba como parte vital deste ciclo de violência que cresce e se volta contra ele próprio? O que será necessário para o homem se olhar no espelho e enxergar que ele é, em grande parte, o protagonista da violência que tanto o aflige?

Mostre-me o que compartilhas e te direi quem és

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Gosto de fazer analogias sobre hábitos, comportamentos e movimentos em massa em diferentes épocas, na base do AMS/DMS – Antes das Mídias Sociais e Depois das Mídias Sociais, analisando os desdobramentos de situações que antes passariam quase no anonimato e agora se transformam em grandes acontecimentos.

O fato é que a velha frase “minha vida é um livro aberto” que antes um indivíduo usava para dizer que não tinha segredos, ganha dimensões bem diferentes se transformada em “minha vida é um facebook aberto”, por exemplo.

E não precisa de muito. Ainda que a gente não escreva uma linha opinativa a respeito de algo, o simples curtir e compartilhar pode dizer muito mais a nosso respeito do que podemos imaginar. Músicas, fotos, notícias, piadas… revelam gostos, simpatias, personalidade e, algumas vezes, até caráter, que tem sido tomado como base de opiniões e decisões em diversos aspectos, incluindo profissionais, como a contratação de funcionários por algumas empresas.

E pergunto: Você já parou para pensar no que está projetando e na responsabilidade que possui ao entrar nas diversas ondas que surgem todos os dias na web? Até que ponto procura se inteirar sobre denúncias antes de compartilhá-las? Até que ponto conhece àquela ação política super polêmica que “todos” julgam como boa ou ruim? O quanto julga inocente aquela piada sobre acidentes, tragédias ou gafes cometidas por personalidades ou mesmo pessoas comuns que se transformam em memes?  Até que ponto a sua opinião é realmente a sua opinião?

Pois é, você é apenas mais um, por certo, em meio a milhões de pessoas que pode transformar uma mentira em verdade, destruir uma carreira, separar uma família. Sim, você tem o poder e a responsabilidade sobre o todo.

Acho que todos precisamos de um exercício analítico sobre o nosso comportamento nas redes sociais e que pode ser resumido em alguns pontos básicos:

– Não tome para si a “certeza” de um coletivo antes de estudar a respeito;

– Não compartilhe algo importante e decisivo para a vida de outros, apenas porque uma personalidade ou aquele seu amigo muito inteligente o fez;

– Analise a amplitude da palavra sarcasmo e bullying nos mais simples posts;

– Pense sobre quanto os dois lados de uma verdade podem ser convincentes sob diferentes aspectos e formas de persuasão;

– Pense.

Para concluir, cito uma frase que ouvi certa vez, muito antes do advento das redes sociais, que julgo agora ter um poder e uma razão ainda maior: “Antes de dizer algo sobre alguém, pense se este algo irá acrescentar algum fato positivo à vida desta pessoa. Caso contrário, melhor ficar calado”.